Casa, teatro e esquina

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Águas mortas

Certa vez o chuveiro em casa dele deu goteira. Correu e pegou um balde para não desperdiçar água. E o dia durou cinco baldes cheios. "Preciso de novos baldes", pensou. Não tinha dinheiro para trocar o encanamento e não queria também deixar aqueles banhos irem ralo abaixo. Chegou a ficar feliz com a possibilidade de distribuir água nas vizinhanças. O acaso criou caso: sua vida tomara um novo rumo e ele sequer se deu conta de que o sonho poderia impor paredes.

Em seguida o telefone em casa dela chamou três vezes. Correu e atendeu com voz inerte. E o dia durou cinco conversas animadas. "Preciso logo lhe confessar tudo", pensou. Não tinha coragem para admitir que o ressentimento pingava e não queria também passar enxada sobre aquela terra construída. Chegou a ficar desorientada com a possibilidade de chorar soluços. A ferida criou vida: seu caso tomara um novo rumo e ela sequer se deu conta de que o sonho poderia fugir aos dedos.

À noite, ela chega de surpresa. Ele já enchia mais um balde. "Todos vão ficar muito felizes", exclamou ele. "Espero que você também fique", suspirou ela. Depois de um silêncio incômodo, ela já não o amava mais. "O que nós temos na mão são uns poucos baldes cheios", murmurou ele. O futuro ficou entreaberto, como a porta que ela não fechou por inteiro ao sair. Aos poucos, a carência se tornou solidão e ela já poderia andar sozinha. Olheiras calejadas. Um banho frio ao amanhecer.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Mar negro

Sinto que a febre pode me atingir a qualquer momento. O céu parece o mesmo filmado por Kurosawa. São os mesmos fantasmas de sempre, acordados por uma raiva momentânea e fútil. Culpa da falta de fineza dos que mordem. A mim, o que falta é um pouco de resiliência, essa nobre virtude dos sábios de espírito. Não consigo jogar no mar todas as pedras que me atiram, por isso continuo aqui deitado, contando cada uma delas e lhes dando um nome (um hábito romântico), como num romance de Kundera.

A tempestade fica um pouco mais barulhenta. E se tívessemos a chance de escolher entre um passado sem manchas e um futuro brilhante? Pessoalmente, ficaria com a primeira opção. Não sou saudosista, admito, mas de um outro tipo ainda mais utópico: os que gostariam de mudar o que já foi. Envelheço anos com essa luta homérica, na tentativa de apagar algumas frases da memória. Com isso me encolho e vejo as dores passarem como raios que me tiram a paz. As paredes parecem cair de tanto balançar.

Mas quando estava só, mesmo com todos os melodramas e defeitos, você me deu o leme do barco. Depositei toda a água que engoli na curva do teu seio e deixei o mar nos levar até qualquer direção. Agora já não importa mais: gritem o que quiser, matem o que puder. Estamos sós. A brisa forte cobre os seus olhos de ouro velho com os cabelos salgados. E, embora essa angústia tente me engolir pelas bordas, sei que a sua boca sempre será luz. A vida transborda no convés e eu não consigo olhar o sol.

Deixar o horizonte tomar conta do olhar enquanto me delicio nos seus braços. Isso só pode ser a felicidade e agradeço por cada um desses segundos que me enchem o peito.

terça-feira, outubro 23, 2007

O silêncio

- Não, não pode ser! Há quanto tempo!
- (...)
- E aí? Como você está? Casa, trabalho, família?
- (...)
- Bem que me disseram que você havia mudado muito. Por que esse olhar cabisbaixo? Ainda jogando dominó com os primos?
- (...)
- Tudo bem, eu também sei ficar calado. Aliás, faço isso muito bem.
- (...)
- O que aconteceu com você? Você comstumava rir tanto. Lembra que você sempre contava piadas em nossas festas?
- (...)
- Pelo jeito continua afiado. Eu sei que, no fundo, no fundo, você deve estar debochando de mim. Mas eu não ligo. Você já viu aquela boate nova? Um dia trouxe Joana aqui e ela adorou. Quer comer algo?
- (...)
- Fale alguma coisa! Que droga! Eu fico aqui o tempo inteiro tentando estabelecer uma conversa normal e você não faz nada para ajudar.
- (...)
- Sabe de uma coisa? Cansei de você. Cansei de ver essa boca inerte. Estou indo embora. Adeus.
- (...)
- Que maldição...esse silêncio me angustia...um sorriso, nem que seja de ódio...
- Clarisse...
- Quê?
- Clarisse?
- Quem é Clarisse?
- (...)
- Mas quem é Clarisse?
- Clarisse se foi...
- Como ela se foi? Quem é Clarisse?
- (...)
- Como ela se foi?
- Ela se foi...
- Hum...Você não está se referindo à Clarisse da oitava série, está?
- Clarisse...
- Não, não pode ser. Afinal, já faz dezoito anos.
- (...)
- É ela?
- (...)
- Você está brincando. Aquela garota sem graça?
- Clarisse...
- Rapaz, nem me lembre daquela menina. Ainda bem, só mais uma lembrança de nossas adolescências agridoces.
- Clarisse...
- Sério agora: de que Clarisse você está falando?
- (...)
- Por que essa cara?
- Clarisse...
- É ela?
- (...)
- Por quê você me olha assim? O que eu poderia ter feito? Por que você não me disse nada? Não é culpa minha! Não me faça ficar posando de idiota!
- Clarisse...
- Como eu poderia saber que algo tão banal para mim seria fundamental para você?
- (...)
- Desculpa, mas não posso fazer nada por você então. Não fique assim, deixe essa tristeza de lado.
- (...)
- De novo o silêncio? Bom, tenho que ir. Joana já está me esperando para o café. Se quiser passar um dia lá em casa, seja bem-vindo. E mande um abraço para a sua esposa...como é o nome dela mesmo?
- Clarisse?

terça-feira, setembro 25, 2007

Surpresa

A noite já ia longe quando teve uma súbita vontade de ligar para ela. Hesitou por um instante, tomou mais um gole de café, pegou o telefone e colocou de volta na mesa, rindo, como quem achava aquilo a maior bobagem. Um segundo depois a vontade beliscou o coração de novo. E se ela estivesse dormindo? Como devia ser ruim ter o sétimo sono interrompido. E logo ela, que, quando dormia, tinha rosto de criança, suspiro de criança e cheiro de criança. Lisa pele de flor. Se ela fazia biquinho, ele morria.

Decidiu ligar. Um aviso da operadora de telefonia o alertou para uma nova promoção. Era o acaso, aquela pequena mão invisível que coloca as cartas do baralho em seus devidos lugares. Em uma noite de maio de lua minguante, poderiam ter lançado um seis, mas o acaso trouxe um nove. Desde então, não se joga outra coisa que não o amor. O pecado original foi perdoado. Aqueles beijos só poderiam ter gosto de algo parecido com o céu. Naqueles braços ele voava como os anjos entre as nuvens de algodão-doce.

Dessa vez daria certo. Dedicaria àquela voz as estrelas mais belas do céu. A lua crescente seria um berço para embalar o seu final de madrugada. Não estava satisfeito. Era preciso mais. Eram preciso flores, bombons, passagens de trem. A linha já chamara três vezes. Era preciso um abraço pelas costas, uma surpresa que marcasse o corpo e a alma. Era preciso conhecer cada partícula daquele olhar, assim como o bom turista conhece todos os cartões-postais dos locais que visita. Era preciso morar dentro dela.

Ela atende. Preciso dizer que te amo. Só isso. Não, não. Preciso dizer que te adoro, que sem você eu não vivo, que você é a razão de meu sorriso, meu porto seguro, minha zona de paz. Só tenho olhos para os seus. Sim, sim, é de verdade, é do coração. Por favor, durma bem. Pense em mim. Eu te ligo às sete, te pego às oito e estamos na praia às nove. Dessa vez eu pago a água-de-côco. Até amanhã, amor. Desligou mansamente o telefone e também dormiu, profundamente satisfeito consigo mesmo.

terça-feira, setembro 04, 2007

João e Maria

O olhar vazio fitava o mesmo teto que, outrora, testemunhou cenas de um amor violento e sincero. "O único coração que vive em paz é o que já não bate mais", pensou. Tentava se confortar com a formulação de uma idéia original, mas que, na realidade, não alterava em nada o desrumo que tomou a sua vida. As recordações eram tão letárgicas quanto um orgasmo. O vento forte fazia as janelas tremerem de frio. O sopro fino que ultrapassava o vidro mal fechado era como um uivo. Não resistiu e se foi.

Enquanto ligava o carro, lembrava das vezes em que aquela cabeça havia dormido silenciosamente sobre o seu peito nu. Sentia-se completo e vazio diante de tal situação. Os pneus derrapando acordariam todos os vizinhos se eles já não estivessem acostumados com seu instinto quase selvagem. No dia em que se conheceram, brincavam de atirar pedras num lago, quando ele quebrou a janela de uma casa e eles correram alegremente como João e Maria. Inocentes que eram, ignoravam as bruxas que rodeiam todos os passos infantis.

Teve uma idéia quase brilhante e original: comprou flores no caminho. Por ter, digamos, uma veia pouco poética, comprou alguns cravos. A atendente agradeceu as moedas e fez zombarias às suas costas. Os mendigos sofriam com aquele gasto que, aos seus olhos, era supérfluo. Maldições à parte, acelerou novamente em direção àquele endereço. Beijavam-se continuamente, sem cortes. O mar cantava uma bela canção. Ele tinha medo dos silêncios, exceto daquele, que se parecia com o intervalo entre os atores e os aplausos.

Chegou cheio de suor e esperança. Viu as luzes que estavam apagadas. Uma pequena incompatibilidade do destino, até o momento em que o carteiro, que fazia hora-extra, disse que havia se mudado com o filho. "Filho? Foi aquela janela no lago, só pode ter sido", indagou-se desnorteado. Logo ele, sempre tão cético. Como João, marcou o caminho de volta com aqueles cravos que carregava, tão mal-amados, sem saber que passarinhos se encarregaram de destruir o seu sonhado retorno.

sábado, agosto 25, 2007

Conversa de brechó

- Estou envelhecendo.
- Como é?
- Você ouviu. Estou envelhecendo.
- Fala quem te deixou dessa vez.
- Não é nada disso. Não estou me queixando de nada.
- Hunf! Você pode até enganar os leitores, mas não a mim.
- É justamente sobre isso que eu quero falar.
- Lá vem você e suas conversas chatas...
- O que é que você tem? Sempre com esse cinismo para cima de mim!
- Calma, não precisa se exaltar. É que sei quando você vai começar um de seus solilóquios. Mas vá em frente, não vou dizer mais nada.
- Sim. Como eu ia dizendo, eu estou envelhecendo.
- E...?
- Você não percebe?
- O quê? Todos nós estamos envelhecendo. Ou você nunca percebeu isso?
- Mas poucos param para pensar na beleza da maturidade.
- E o que há de belo em ganhar rugas ou cabelos brancos?
- Não falo do corpo. O corpo é algo efêmero, passageiro.
- E assim o são também os nossos sentimentos.
- Mas as marcas que eles nos deixam não são.
- Ih...explique-se.
- Sabe quando você vê um semblante sério, um olhar melancólico, os ombros fortes de quem carrega o mundo nas costas?
- Como Cipriano Algor, de Saramago?
- Isso! O peso, a tristeza, a humilhação: é isso que transforma a vida em poesia. A constante superação é a matéria-prima da nossa existência. Sem isso, somos apenas um vento, que nunca finca raízes.
- E quanto às alegrias?
- Só têm valor na glória, na vitória. Alegrias gratuitas não me interessam.
- E o que isso tem a ver com a velhice?
- Hoje só a velhice pode ser associada à experiência, à reflexão e à sinceridade. Além disso, só a velhice confere verdadeiro valor e significado às nossas lembranças.
- Você acha que a liberdade juvenil não é sincera?
- Que tipo de liberdade é essa? Se for a inconseqüência, que se realize longe dos meus olhos. A única liberdade que me agrada é a transgressora.
- Ser inconseqüente não é ser transgressor?
- Não, não e não! O que alguns idiotas fizeram foi associar o descompromisso à juventude. Então, se for, assim, eu renego a minha juventude!
- Revoltado...
- Com causa e me orgulho piamente disso! Eu odeio a leveza do segundo que não volta. Não consigo imaginar alguém vivendo sem paredes. Não posso viver desabraçado de tudo aquilo que amo.
- E quando se ama o não-amor?
- É um paradoxo insolucionável e, por isso mesmo, impossível. Não amar o amor não quer dizer que se ama o não-amor.
- Acho que você está caindo em contradição. Talvez esteja mesmo ficando velho.
- Bah! Que se negue o amor, mas que o faça em compromisso a qualquer coisa que não o descompromisso.
- Fico triste de vê-lo tão amargo. Perdeu o bonde e a esperança. Você precisa de uma viagem, de uma válvula de escape.
- Mas eu escrevo...
- Conhece o cúmulo do silêncio?
- Não. Qual é?
- (...)
- (...)

segunda-feira, agosto 13, 2007

A perda das horas

Por que a pressa se amanhã, afinal, não existe? Eu já dizia - compassadamente - que as flores podem não estar na cidade em que se pretende chegar. E por que esses automóveis tanto te acompanham em seus passos? O que era caminho se tornou estrada e o que era curva se tornou reta. Gostava de quando a gente andava e parava, andava e parava, andava e parava, apreciando cada pedacinho de verde que não precisava de permissão estatal para crescer ou se manter em um local afastado das placas.

Gostava do tempo em que se viviam os dezenove como se fossem os dezenove, e não a preparação para os vinte ou os oitenta. Ah, tempo bom! É de se deliciar lembrar as crianças que brincavam com imaginação e os pais não precisavam dizer que só o real salva, só o real é que tem valor sobre a terra. Mentira deslavada, daquelas de destruir sonho ou bolo de aniversário. Foram-se os dias em que se acendiam menos velas, mas todas elas queimavam com intensa paixão até o último branco da cera.

O amor era regrado apenas pelo infinito que o momento oferece, aquele infinito que pode não durar por todas as horas, mas que tem paredes de algodão. Se no inferno o passado se apresenta sempre em forma de presente, eu nego isso de olhos abertos e não deixo o meu sorriso ser a sombra do sorriso de outrora. Transformo o que já não existe mais em assunto de conversa de bar, de cama vazia ou de papel novo. Aliás, essa nostalgia angustiante não me provoca choro, mas o deleite de se estar vivo e iluminado.

Ignoro tudo o que não for agora. Já é hora, aliás. Vou me lançar por aí.

terça-feira, julho 24, 2007

A comédia da vida

Noite na cidade. Em uma rua de mão-única, pessoas se amontoam nas calçadas para ver o circo armado. Um palhaço de pistola em punhos e um velho decadente encostado em um lixeiro vazio. Poderiam ter acertado as contas em qualquer beco escuro, mas preferiram os postes bem iluminados das sextas-feiras. Tinham cansado de ser ignorados por aqueles que só queriam ver as motos, seja no globo da morte, seja alçando vôo nos quebra-molas. "É hoje que você dança", disse a boca pintada com tinta vermelha, que transmitia tanto ódio quanto brilho.

O fio da vida estava se rompendo quando veio à cabeça grisalha um pensamento que lhe pareceu absurdo: "sinto, logo existo". Talvez todos nos tornemos sábios nos últimos segundos. Aqueles pés descalços sentiam o frio que nenhum outro mais sentia e o medo que lhe comprimia o pescoço era o que o diferenciava de todos os outros velhos no mundo. A razão é só uma bobagem lógica inventada por alguns europeus mortos de cabelos longos. Se todos aqueles que sentavam no meio-fio se tornaram insensíveis, o mestre do riso era o primeiro a sofrer com isso.

Há anos não levantava aplausos com suas piadas e isso lhe trazia frustração. Precisou criar todo aquele espetáculo para que o levassem a sério. Engraçado, não? Tinha urgência de ser gravado nos corações das pessoas como tatuagem. Mas, por um instante, o rosto se tornou mais branco que a maquiagem. Sentia tanto medo quanto o seu alvo. "Vale a pena matar sem amor, apenas por egoísmo?", pensou. Os dedos cambalearam e os olhos vacilaram. Deixou a arma cair e chorou até borrar a face. Era apenas uma criança que precisava fingir ser herói.

Sob os holofotes, nunca aprendeu a viver discretamente. Nunca enxergou que não existem bons ou maus dias, mas apenas o uso que se faz deles. Também havia se tornado sábio. Se virou para ir embora, vítima de sua própria humilhação. "A comédia da vida", foi a última coisa que pensou antes de ser baleado pelas costas. Aos poucos, o sangue confunde as bolinhas amarelas com o resto do macacão. Os transeuntes voltam para suas casas. Alguns ainda têm tempo de ir a uma festa que acontece na outra esquina. Já é sábado. O vento sopra fraco como em todas as madrugadas.